Diário sobre a Travessia

Em 2014 eu fiz uma tentativa solitária. Cheguei apenas até o cume do Capim Amarelo e voltei. Época errada, momento errado, afinal, acredito que a escolha não é apenas nossa, mas como dizem os montanhistas, “quem escolhe é a montanha”.

Partindo da crença de que a montanha tem “vida”, ela me escolheu apenas em 2015. Não só me escolheu, ela me presenteou com diz de sol maravilhosos e noites de lua cheia tão belas, que o frio congelante e o vento cortante, não me impediam de ficar fora da barraca, para apreciar, contemplar e viver algo ímpar.

DIA DA DECISÃO . Posso chamar de dia 1 o dia em que o Guia e amigo Guto, me disse que faria a Serra Fina, apenas com um cliente. Ele sabia que esta experiência desejada por mim, teria que ser especial e por isso com pouca gente. Nada de grupos, apenas um ou dois, o que garantiria uma travessia introspectiva e de observação interna e externa.

Quando o Guto me disse que seriam dias de sol e que a lua estaria cheia, trabalhei de maneira alucinada na segunda feira, fui para a rodoviária, peguei o ônibus das 23 horas, para chegar na cidade mineira de Passa Quatro às 3h30 da madrugada. Já estava com uma pousada simples reservada, apenas para dormir na horizontal, por 3 ou 4 horas. Horizontal pois no ônibus é um sono vertical.

DIA 1 . Tomando café da manhã as 7 horas, chega a carona para me levar até o inicio da trilha, na “Toca do Lobo”. Foi aí que conheci meu companheiro de travessia, o cliente que o Guia havia falado, e mais uma vez dei muita sorte. Jean era um cara bacana, com um projeto de montanhas bacana e com um astral muito bom! Piadas nas horas de piadas e silencio nas horas de silêncio.

Quando chegamos no ponto de partida, reencontrei dois caras, que vieram comigo no ônibus. Eles também fariam e travessia.

O primeiro dia talvez seja o mais duro, mas não posso afirmar. É o dia com maior desnível, pois os demais, são sobe e desce na crista da serra. Neste primeiro dia também estamos super carregados com água, alimento para todos os dias e outros detalhes.

Chegamos cedo no primeiro Pico, o Capim Amarelo, e foi bom estar em terreno conhecido. Montei a barraca, preparei comida, batemos papo, fiz algumas filmagens, fotos, mas neste dia decidi dormir cedo, afinal, havia tido uma noite anterior bem difícil.

DIA 2 . Confesso que na minha cabeça e sem justificativa, o segundo dia rumo à Pedra da Mina, me deixava preocupado. Havia lido alguns relatos, afirmando ser o dia mais difícil. Outra coisa que me preocupava era a força das minhas pernas. Desde o Iron Man eu não estava mais indo no funcional CETF e eu pensava “acho que vou sofrer”. Para antecipar e fechar este assunto “pernas”, fiquei muito feliz em me ver forte, como nos meus anos de atleta treinado. Me recordei de quando subi a pedra do Papaguaio na Ilha Grande, o Baepi em Ilhabela, não a tanto tempo assim e eu estava bem fora de forma.

O dia 2 é bastante motivador, afinal o objetivo é a 4ª maior montanha do Brasil. Parece que há quem diga oficialmente ser a 5ª, mas não importa… é alto para cacete! Percebe-se isso principalmente quando no amanhecer, você vê as nuvens abaixo de você! Todas! Para cima, apenas o céu azul.

A Pedra da Mina é um lugar bem exposto, 6 ou 7 lugares para barracas, o que faz com que se torne um problema, caso chegue lá com muita gente. Assinar o livro de cume neste lugar, parece uma cerimônia. Você senta com calma, dá uma lida no que foi escrito por outras pessoas, pensa no que seria importante para você, deixar registrado por lá e aí vem a escrita. Minha letra ficou horrível, irreconhecível (vide a foto no álbum de fotos), mas o frio faz isso com a coordenação. Fiz questão de agradecer a Deus por estar lá, seja lá Deus quem for. Fiz questão de homenagear meus pais e minha irmã, sobrinha e cunhado.

Não posso deixar de falar sobre um fenômeno único! Eu olhava para um lado e via a lua, céu negro, estrelas, ou seja, noite! Virando 180 graus, eu via o sol se pondo, céu laranja forte e a paisagem ainda iluminada pela luz do dia! Nunca vou esquecer isso.

DIA 3 . Rumo ao Pico dos três estados. Esta montanha leva este nome por seu cume estar dividido por três estados! Sim! Lá em cima, com a diferença de um paço para lá ou para cá, viajamos de São Paulo para Minas Gerais, de Minas para o Rio de Janeiro e do Rio, novamente para São Paulo, não necessariamente nesta ordem. Kkkk

Neste trecho principalmente, tive que usar o exercício do eu posso, eu consigo e tudo vai dar certo. Existem trechos de caminhada e de pequenas escaladas em rocha, sem proteção, do tipo “caiu morreu” rs. Eu tem desconforto com altura. Engraçado que, para saltar de paraquedas, tiro de letra. Parapente…tranquilíssimo! Tirolesa, rapel com 80 metros de altura, tudo isso já fiz, sem o menor frio na barriga, mas em montanha, nos trechos mais perigosos, a coisa pega e tenho que ser lento…bem lento…

Itatiaia, vista dos Três Estados, fica incrivelmente mais bela! E até dá vontade de estender a viagem por mais dois dias e seguir para lá, mas não, no dia seguinte, era hora de seguir o plano e partir, descer.

Foi uma noite bastante especial. Já éramos uma família. Foram três dias juntos, vivendo a vida de maneira bem simples, sem exigências ou bobeiras do cotidiano.

DIA 4 . Este para mim foi o dia mais cansativo. Fisicamente bem, mas acho que inconscientemente, exercitar-se, sabendo que está voltando,  gera uma inconsciente uma desmotivação. Não há mais nenhum objetivo nobre como alcançar um cume. Não há mais a curiosidade em saber o que nos aguarda. Só resta descer para um lugar que já conhecemos bem: civilização, pessoas, carros, barulho e etc. Sim, voltamos depois de apenas 4 dias, bem mal acostumados

Durante os dias desta travessia , encontramos outros grupos no trajeto. A cordialidade e desejo de sucesso, é prática espontânea entre pessoas lá em cima. Realmente, mais uma vez, fiquei “de cara” como podemos viver bem e de maneira simples.

Esta viagem foi realizada de maneira segura. Eu estava com um localizador via satélite, que possibilitava qualquer um, me seguir durante o dia, ou ver onde eu estava. O SpotPhone também foi incrível! Pude gravar mensagens ou narrativas de voz para o meu site (ouça as gravações ai abaixo), pude saber como andava tudo no escritório (fiz isso uma só vez e depois desliguei geral) e tinha a segurança de poder ligar para qualquer pessoa e qualquer momento.

Na primeira vez que estive no Capim Amarelo, consegui usar o celular, mas desta vez, não só eu, mas todos que estavam lá em cima, não conseguiam comunicação eficiente. Foi bom ver as pessoas extremamente felizes, quando emprestei o SPOTPHONE, para elas falarem e tranquilizarem família, filha, esposa ou namorada.

Bom, a vida segue, os projetos seguem, mas aí vai o que muitos querem ou precisam ouvir: Não deixe de fazer esta travessia caso seja um desejo. Não dá para explicar por que. Isso é pessoal,  é de cada um, mas estou 101% certo que não há decepção na volta, apenas um sentimento de redescoberta de si.

Minhas fotos da travessia

Capítulo 1 . São Paulo SP / Passa Quatro MG

Capítulo 3 . Pico da Pedra da Mina / 2.798m

Capítulo 3 . Pico dos Três Estados

Capítulo 2 . Pico do Capim Amarelo / 2.570m

Capítulo 4 . Pico dos Três Estados / 2.665m

Diário de voz gravado dia a dia

1º Dia . Pico do Capim Amarelo

3º Dia . Pico dos Três Estados

4º Dia . Fim da travessia

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