Diário sobre o Trekking

“UMA LONGA VIAGEM COMEÇA COM UM ÚNICO PASSO”

 

Visitar o Parque Nacional de Torres Del Paine foi mais do que uma bela experiência, foi um reencontro com a natureza mais próxima possível da sua origem selvagem e digo isso em fauna, flora, mas principalmente na sensação de estar praticamente só, por longos trechos, onde é você e sua habilidade em passar pelas dificuldades e mudanças repentinas do tempo. O Parque Nacional é incrível, bem organizado e estruturado, confesso ter sentido um pouco de “inveja”, quando caminhando eu não deixava de pensar em parques no Brasil, que poderiam ser igualmente organizados, seguros, atraindo um grande número de turistas de todo o mundo.

O parque fica na Região de Magalhães / Antártica Chilena/ Patagônia. A localização geográfica não esconde o quanto agressivo pode ser o clima, mas tudo tem seu preço e no nosso planeta quase sempre as belas paisagens ou o contato mais estreito com a natureza pura, cobra seu preço.

Por que “W”? O que é “Paine”?

Circuito W, a trilha que rodeia o Maciço Paine. Seu nome foi atribuído á união dos principais pontos do parque, que conformam uma perfeita letra W. Os principais pontos atrativos do Circuito W são:

  • Base Torres del Paine: o trekking mais famoso do Parque Nacional. Após uma subida de quatro horas de trekking passando pelo Vale do Rio Ascencio e os bosques milenares de Lenga se chega ao Mirante da Base Las Torres, um espetáculo maravilhoso das três torres, do glacial suspenso e da Lagoa.
  • Vale do Francês: no coração do Circuito, é uma paisagem de tirar o fôlego. Devido ao intenso trekking, não são todos os que conseguem de desfrutar deste maravilhoso cenário natural formado por vales, montanhas e pilares de granito.
  • Glaciar Grey: Beirando o Lago Grey e o setor oeste do Paine Grande é possível se aproximar a um dos mais importantes glaciais que compõem o Campo de Gelo Patagônico Sur, a terceira fonte de água doce do planeta.

Duração total do Circuito: 5 dias / 4 Noites. Distância Total: 71 Km

Nas imagens a seguir temos a localização exata do Parque e o percurso completo que fizemos. Uma das partes do W não pode ser feita e abaixo explico o motivo.

Esta viagem já estava programada há bastante tempo. O projeto inicial seria fazer o circuito “O” ou circuito completo, que compreende um percurso no desenho desta letra, tendo o “W” como parte dele, mas a época que escolhi para ir foi uma época em que muitos abrigos já estão fechados e me restando assumir o “W”, ou circuito menor.

A época ideal é de Setembro até Fevereiro. Todos os refúgios estão abertos e não é tão frio como Abril. Cuidado pois o Parque fecha no final de Abril e aí só contratando guia local.

Fui na época “errada” ou não tão adequada, pois o meu trabalho só me permitiu que fosse assim. Rapidamente me preparei e parti! Desta vez não fui sozinho, mas em companhia de Aline Miranda, uma corredora de montanha da cidade de São José dos Campos e certamente a pessoa que deu vida com seu sorriso e olhos brilhantes, aos dias sofridos e de muito frio. É ótimo ter uma pessoa assim do seu lado, principalmente quando você é o contrário, sério e calado. Estava com certo medo, pois as amizades e neste caso recente, se fortalecem ou se destroem irreversivelmente em uma viagem com tantas privações e exigência física, mas deu tudo certo.

Havia conhecido casualmente a Aline há poucas semanas e por uma coincidência, Torres também estava nos planos dela. Aline também tem um projeto onde ela viajará por diferentes países, por aproximadamente um ano. Boa sorte! Go ahead!


Partimos de São Paulo para Punta Arenas, na sequencia seria Puerto Natales onde tomaríamos um ônibus para o Parque. Esta época do ano e final de temporada, deixa tudo mais complicado. Os horários de ônibus são restritos, os funcionários das bases dentro do parque já não estão com o gás ou simpatia para atender os turistas de maneira cordial. O frio é algo que dói, que incomoda e é preciso ter cabeça tranquila e saber lidar com o desconforto, pois ele é bastante grande. Chegar na sua barraca suado, molhado, fedido, a noite e entrar no saco de dormir para se livrar do frio ou de uma gripe, pode fazer parte da brincadeira.

Dia 1 . Refúgio Las Torres / Torres Del Paine / Refúgio Las Torres

Finalmente chegamos na administração do parque e após o registro, palestra sobre segurança e etc, partimos para o primeiro refúgio chamado Las Torres . Sem perder tempo deixamos toda a estrutura na barraca pronta pois devíamos partir o mais rápido possível para as Torres, um trekking de 19 Km ida e volta, onde certamente entraríamos na noite e ser rápido na partida era importantíssimo para diminuir o quanto avançaríamos nela.

Era o primeiro dia e claro que o animo por começar a caminhar não nos fez perceber que se tratava de um trekking não só longo, mas com uma altimetria a se levar em conta, principalmente no final ou pouco antes de atingir as Torres. O certo e se tivéssemos tempo, seria ter aguardado um dia com melhores condições, com sol, pois teríamos a garantia de um visual perfeito das formações de granito, mas a viagem já estava atrasada, não havia mais dia a perder. Cumprimos a missão, mas infelizmente a nevoa evitou que tivéssemos a imagem das torres. Mesmo assim permanecemos por lá uns 40 minutos em parte acreditando que por alguns segundos as coisas poderiam mudar e seriamos então recompensados com a vista das formações, mas não, nada mudou e lá fomos nós para a descida de volta.

Foi um trekking misto. Gelo, rochas, terra, tivemos de tudo, mas já neste primeiro dia a pergunta era: “que lugar é esse!?”

A noite e de volta ao acampamento, conseguimos secar as roupas, jantar e dormir, recuperando as forças para o dia seguinte.

Dia 2 e 3 . Refúgio Las Torres / Refúgio Los Cuernos

Logo pela manhã conhecemos um casal francês muito simpático. Rolou um bom papo e esta é uma das coisas impagáveis em uma aventura como esta. Conhecer gente do mundo todo, que se torna rapidamente “velhos novos amigos”. O foco para quem pratica trekking, montanhismo é tão igual que quando nos conhecemos parece na verdade que estamos reencontrando alguém e na minha opinião isso deve-se ao espírito leve de quem tem a natureza como pedaço ou escolha de vida… Somos mais simples, abertos e fáceis.
Este casal já nos alertou de saída que o trecho que que tínhamos pela frente, embora curto, seria bastante duro e que não devíamos retardar a nossa partida. Seria o 1º trekking com a mochila cargueira nas costas, mas embora tivéssemos tempo, seria prudente partir e lá fomos nós.

Um dia realmente duro, muito sobe e desce que embora não alcançasse grandes diferenças altimétricas, exigiu muito da forma física, pernas e cabeça. O visual durante todo o percurso somou-se ao da chegada no Refúgio Los Cuernos. É de fato impossível terminar esta viagem dizendo qual trecho foi o mais bonito. Tudo é de tirar o folego e ver este acampamento incrustado na base da montanha, de frente para o lago, com uma cachoeira no fundo e grandes picos com neve ao redor, foi um sinal disso. Claro que tem a desvantagem. Estar no pé das montanhas onde os raios de sol chegam com dificuldade, somado à presença de vegetação farta e tão próximo de tanta água, já na chegada nos fez perceber se tratar de um lugar bastante frio!

Cheguei debilitado ou melhor, com o início de uma gripe muito forte. Calafrios, dor de cabeça e febre. Esta condição nos fez ficar neste refúgio mais tempo do que havíamos planejado. Dormimos, acordamos e eu decidi ficar mais um dia por lá, parado, me medicando e me alimentando bem, para recuperar-me rapidamente e não correr o risco de comprometer a viagem. Eu estava realmente mal, mas minha vantagem é ter uma longa vida no mato, no calor, no sol, bem, mal e saber que tudo se resolve.

Neste lugar conhecemos muitas pessoas e o Pipo, guia local do parque, foi a cereja no bolo. Sem me alongar, conhecer um cara simples, de traços indígenas, preocupado em ajudar todos os que estavam lá, que vive quase o ano todo no parque e que diz “a minha namorada é a montanha”, já dispensa qualquer texto contando os papos e a luz branca que este cara emanava. Não é incomum eu sentir necessidade de abraçar pessoas assim e de deixar uma lembrança. Entreguei para ele uma camiseta do meu patrocinador, a SPOT e um boné que eu amava, mas estava certo que amaria muito mais saber que ele estaria na cabeça desta pessoa. Palavra de ordem: desprendimento.

Antes de finalizar este texto sobre o dia 2 da viagem, faço aqui um agradecimento a Aline, a minha companheira de viagem, que cuidou muito de mim. Preocupada com o horário da medicação, todo momento atenta ao meu conforto, cozinhou sozinha e sempre com o sorrisão no rosto. Eu não poderia ter tido companhia melhor! Nada acontece por acaso… nada. As pessoas que conhecemos e que temos que conhecer, passam na nossa vida sempre por algum motivo e no meu caso foi a minha experiência aprendendo com a inexperiência. Quem tinha um super kit de 1ºs socorros? Claro que eu! Quem tinha os remédios que eu precisei a que me salvaram? Ela… Aline. Sempre precisamos uns dos outros, a vida é assim e sempre será assim, em qualquer lugar ou momento.

Dia 4 . Refúgio Los Cuernos / Refúgio Paine Grande

Seria o dia mais duro de todos. A ideia era seguir para o acampamento Britânico, deixar as mochilas e subir até o Mirador Britânico.

Quando deixávamos o Los Cuernos, “Pipo”, o guia local, me disse que como o tempo estava encoberto, não veríamos absolutamente nada caso chegássemos ao Mirador Britânico. Isso me deixou bastante triste. Você não faz um trekking completo para dizer que fez, no meu caso eu também faço para ter o visual das montanhas, aquele caminho existe para leva-lo a um objetivo e sofrer com a distancia, frio e tudo que acompanha um trekking longo, precisa ser recompensado ou ter um objetivo a ser alcançado. Infelizmente tivemos que deixar de fazer este trecho do “W”. Talvez se estivéssemos com mais tempo de viagem a solução fosse chegar ao Paine Grande e voltar, tipo bate e volta, para concluir esta perna, mas não era o caso, não tínhamos mais tanto tempo. O jeito foi fazer do Refúgio Los Cuernos até Paine Grande, direto e deixar o Mirador Britânico para uma outra oportunidade… quem sabe…

Chegando ao Refúgio Paine Grande, mais uma vez nos preparamos para o dia seguinte que seria o Mirador/ Refúgio Grey. Embora este refúgio Paine Grande nos parecesse o maior e mais bem estruturado, na verdade foi o que mais decepcionou. Banho quente só em horários onde você já está congelando de frio e a água não era quente. Imagina um lugar com temperaturas abaixo de zero e você entrando em um local com chuveiros expostos, entre 19 e 22 horas. Essa hora você já chegou e quer o calor do seu saco de dormir. Barraca que contratamos montada em local com buracos o que me fez pensar em duas únicas possibilidades: uma de quem montou não ter qualificação para trabalhar em um acampamento ou se tratar de uma pessoa que tem conhecimento, mas que não liga para a importância do seu trabalho ou em servir bem pessoas que estão lá tendo dias duros de grande esforço físico. O astral dos funcionários neste lugar estava muito ruim. Não quero aqui dizer que este refúgio é uma calamidade, ser o cara chatinho da internet, pode até ser que eu tenha tido uma má sorte, mas vale o relato para que pessoas que desejam realizar esta viagem já sigam prontas para o legal e para o não tão legal assim. Fuja do período de fim de temporada.

Dia 5 .Refúgio Paine Grande / Mirador Refúgio Grey / Refúgio Paine Grande

Iniciamos o trekking não tão cedo, as 10h30 aproximadamente já estávamos com os pés na trilha. Este trekking na minha opinião é bastante tranquilo, sem grande esforço físico e que nos levou a um dos lugares mais belos. Olhar de perto um glaciar, grandes placas de gelo boiando no lago, nos coloca frente a frente com algo que muita gente passa a vida sem ver. Muita gente vive sem conhecer a praia ou o mar, muita gente jamais verá ao vivo a aurora boreal, muitos jamais verão um vulcão ativo, larvas escorrendo e etc. Quantos fenômenos e surpresas não temos neste “planetinha”, prontos para serem contemplados por nós e no meu caso, neste trekking do último dia, risquei do caderninho um dos meus desejos. Claro que eu queria na verdade era caminhar sobre este glaciar, mas tudo ao seu tempo.

Eu e Aline ficamos no mirador por longos minutos. Fizemos fotos, nos alimentamos, hidratamos e rapidamente seguimos o caminho de volta para Paine Grande. A preocupação ou meta, era chegar ainda com o sol. Este trecho do “W” é conhecido pelo frio, ventos fortes e inesperados que alcançam grandes velocidades e transformam a sensação térmica em algo cortante.

Chegamos bem e e chegamos felizes com o fechamento do trekking. Fomos todo tempo acompanhados pelo SPOT Gen 3. Este equipamento tem um botão que quando acionado, envia uma mensagem pré criada para pessoas que se preocupam conosco, familiares, amigos e etc. No meu equipamento eu cadastrei: “Estou bem e feliz”. Esta era a mensagem que pessoas queridas recebiam. Se cabe uma brincadeira, no final do percurso completo eu tinha duas vontades, a primeira de ficar apertando o botão sem parar e a segunda de ter cadastrado algo diferente, do tipo: TO BEM E TÔ FELIZ PRA CACETEEEEEE!!! Se possível com letras maiúsculas! rs

Para finalizar eu posso dizer que este lugar é mágico, renovador, imperdível, mas eu diria para quem está com vontade de conhecer que faça isso na época certa, com tempo e se possível o circuito completo ou o “O”. Embora não tenha feito, estou certo de que cada dia será um dia bem vivido, ímpar e inesquecível. Agradeço a Cia Athletica, academia onde treino com profissionais competentes e que entendem e respeitam as minhas necessidades. Epic Kayaks que em breve será a marca mais falada com as aventuras que virão por aí. Obrigado ao professor Samir Barel que nunca desistiu de mim. Por fim obrigado ao meu patrocinador, a SPOT / Global Star. Sem vocês acreditando no projeto e em mim como atleta, e gerador de conteúdo, certamente alguns sonhos deste projeto não teriam sido realizados ou não serão realizados. Ter um patrocinador que além de tudo te entrega segurança incomparável e a possibilidade de deixar familiares e amigos tranquilos quando estou à mercê da natureza não tem preço!

Obrigados a amigos que há quase dois anos tem interagido com este projeto de maneira ímpar, vocês são parte da alavanca que não me faz parar.

Minhas fotos da viagem

Torres Del Paine W . Teaser

Relato de voz sobre o desafio

DIA 18/04 – São Paulo / Punta Arenas

DIA 19/04 – Punta Arenas / Puerto Natales

DIA 20/04 – Torres Del Paine / Refúgio Las Torres

DIA 21/04 – Trekking até Refugio Los Cuernos

DIA 22/04 – Parado em Los Cuernos

DIA 23/04 – Trekking até Refúgio Paine Grande

DIA 24/04 – Lago Grey / Refúgio Paine Grande

DIA 25/04 – Retorno Puerto Natales

DIA 29/04 – Retorno ao Brasil

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