Diário sobre este desafio

SOBRE O MEU IRONMAN

Se eu tivesse que resumir este Ironman em uma única palavra, certamente eu não conseguiria. Duas são indispensáveis e pesam igualmente: Feliz e Surpreso.
Apenas para relembrar aquilo que nem eu aguento mais repetir, quando decidi treinar para esta prova, não acreditava de verdade que terminaria. Me despi de qualquer orgulho, dos medos em relação as consequências inconscientes do fracasso, de ter que explicar para inúmeras pessoas, porque eu não terminei.
Quando decidi treinar, fiz isso com a maior entrega e dedicação, virei as costas para tudo, fiquei 4 meses praticamente isolado, mas estava bastante claro na minha cabeça que esta dedicação seria para tentar chegar o mais longe possível dentro da prova.
Conheço muita gente que fez o Ironman, gente muito forte, treinada, ou que vivem o “life style” da prática esportiva diária há anos, sem interrupções, e acabaram a prova em 15 horas e pouco. Conheço gente muito forte, da corrida de aventura, esporte igualmente duro, que terminaram o Ironman entre 12 e 13 horas. Com estas referencias é claro que pretendia algo por volta de 16 horas, isso se eu terminasse!
Duas semanas antes, uma velha “amiga”, a dor no joelho, deu o ar da graça. Sua companheira igualmente antiga, a inflamação no ombro, por causa dos muitos anos de surf, também estava lá, esta apareceu um pouco antes, durante a prova de 4.000 metros que fiz no Rei e Rainha do mar.
Quando estas duas dores ressurgiram, tão próximo do Iron, a primeira coisa que fiz foi praticamente parar de nadar e ficar muito preocupado. Se já sem dor as chances de sucesso eram poucas, com dor então… O que pensar?!
Tentei ser forte e fiz o que precisava ser feito. Gelo, treinos menos intensos e cabeça pensando positivo. O ombro zerou, mas o joelho, este sim, me acompanhou antes e durante a prova.
Posso dizer hoje que eu adorei correr, certamente farei algumas provas do 70.3 e que já começo a desejar me inscrever novamente no ano que vem.
O evento é incrível! Mesmo eu sendo organizador de eventos, fiquei impressionado com o tamanho e organização. Claro que não pude deixar de pensar, que se algum dia eu tiver grandes marcas e investimentos, faria alguns eventos tão caprichados, tão organizados, que ai sim eu conseguiria eterniza-los e dar aos atletas aquilo que sempre quis dar por merecimento, afinal, são eles que fazem a coisa acontecer e são eles os donos do show!
Depois de alguns dias de congresso, kit, treinos oficiais de natação e etc, chegou o grande dia!!! Três horas da manhã de pé, um baita frio, e após escovar os dentes comecei a primeira parte de alimentação e hidratação pré prova. As quatro da manhã, a segunda bateria, coloquei a roupa de borracha, anorak, chinelo e lá fui eu para a arena. Acesso à bike, retirada de capa, colocação de hidratação, uma coisa aqui e outra ali… Hora de ainda no escuro caminhar para a praia.
Sete horas da manhã toca a buzina, sinal da cruz e la fui eu. Larguei caminhando, no fundão, para evitar a porradaria do pessoal da frente. Primeira coisa que eu mudaria na próximo prova, largaria no bolo. Isso me garantiria pelo menos 15 minutos a menos no tempo da natação. Fiz estes 3.800 metros em 1h30m e saindo da água, lá veio o primeiro grande problema. Meu Garmin 920, novinho, estava há alguns dias com o vidro trincado, mas lá em Florianópolis este trincado foi a cada dia aumentando, e isso fez com que ele alagasse, ou seja, parti para bike e corrida sem nada da minha alimentação e hidratação que estavam programadas no relógio. Na hora me lembrei das palavras da Rosana Merino e da Nutricionista Dani, que não tomar tudo certinho durante a prova é o que quebra o atleta.
Fiz uma transição rápida e segui para o pedal. 6h34 minutos, dores nos dois joelhos e lá vou eu para a corrida e ai sim a coisa pegou. No Km 15 comecei a intercalar corrida com caminhada. Pernas cansadas? NÃO! Cardio respiratório penando? NÃO! Passando mal com a suplementação durante a prova toda? SIM!!!!!!! Comecei a enjoar e fui assim o tempo todo. Tenho histórico de competidor e sei quando a suplementação não está fazendo tão bem. Tive até que fazer uma parada de uns 10 minutos, dentro de um banheiro químico, pois se eu parasse em algum lugar na rua, não ia parar de ouvir as frases ou palavras de incentivo, das pessoas que ficam torcendo no percurso e não era disso que eu estava precisando… Ouvir estas palavras naquele momento, me deixariam irritado, isso sim!
Esta parada no banheiro químico, foi já no Km 26 ou próximo disso.
Para encurtar, quando comecei os últimos 10 km, perguntei as horas para um cara que estava assistindo e este não só disse a hora como falou “tem 12 horas e 25 minutos de prova”. Neste momento continuei correndo, fazendo contas e acreditando que o cara estava enganado!! Como eu, um “prego”, não tão treinado, com o joelho doendo, sofrendo com a alimentação, poderia estar tão bem?? Tive que conferir com uma segunda pessoa e quando a confirmação veio, eu corri como um garoto de 18 anos! Leve, feliz e com lágrimas nos olhos, lembrando não só dos treinos e privações, mas dos três motivos ou perdas, que me levaram a iniciar este projeto. Lembrei da minha mãe, do meu cachorro e da ex companheira com quem vivi anos de maneira ímpar e feliz. Só aí, neste momento, foi que tudo ficou bastante claro na minha cabeça. Eles foram o gatilho para que eu decidisse viver. Eles foram o gatilho para me empurrar de volta à vida. Neste momento, me despedi de qualquer lamento ou tristeza que eu ainda sentia em relação a estas 3 perdas. Entrei no corredor de chegada, ainda com os olhos alagados, agradecendo ter vivido estas 3 dores e entendendo que elas eram necessárias, que fazem parte natural na vida de qualquer pessoa e eu soube aproveita-las para o lado bom e para me fortalecer. Lá no tapete, no corredor, pude silenciosamente agradecer a vida que tenho e os prazeres e felicidades que são infinitamente maiores que as perdas e dores.
Ah!!! Sobre as duas palavras!? Feliz por ter conquistado o objetivo e ter concluído a prova. Surpreso pois para mim, com todas as dificuldades e pouco tempo de treino, terminar aprova dentro das 13 horas e 37 min, me deixou orgulhoso de mim, fortalecido para as próximas aventuras e certo de que nada acontece por acaso.
Que venha a Serra Fina!
Namastê

Minhas fotos do Ironman 2015

Até 50 . Capítulo 1 . Ironman Florianópolis

Relato de voz sobre este desafio

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